domingo, 22 de novembro de 2009

Entre duas paixões

Como um torcedor fanático pelo Corinthians vestia com prazer a camisa da torcida do Palmeiras

Por Viviane Gonçalves

Sexta-feira, 10 horas da noite, Barra Funda, zona oeste da cidade de São Paulo, sede da Torcida Uniformizada do Palmeiras – TUP. Assim como outras torcidas, não é apenas o futebol que une os torcedores dentro do galpão. Mas também, outra paixão que o brasileiro traz no sangue: o carnaval. A bateria já está pronta para começar mais um ensaio. Esperam apenas o som do apito para que surdos, tamborins, cuícas e repiques encontrem a harmonia perfeita. É o coração da escola que começa a bater. Mãos que balançam de um lado para o outro, para cima e para baixo, olhar atento e ouvidos calibrados de quem conhece o som de cada instrumento. O responsável por dar ritmo aos percussionistas é o Sr. Mário Luis Fraga de Oliveira, um homem de 51 anos, negro, 1,80 de altura, olhos e cabelos pretos e lisos. Nos dias de ensaio, ele era um dos poucos dentro da quadra a se vestir com a camisa da escola, branca com detalhes verdes, estampada com o símbolo da torcida no lado direito e o escudo palmeirense no esquerdo. Cena normal, não fosse mestre Mário preto – como era conhecido – um apaixonado pelo Corinthians. Paixão que deixava em segundo plano quando o assunto era o amor pelo samba. E se o Brasil é conhecido como o país do carnaval, futebol e cerveja, este sim, era um autêntico brasileiro.

A música, o esporte, a comida, a bebida e as festas populares fazem parte da cultura de um povo. O Brasil é um país de misturas raciais. E através da miscigenação é que surgiu o samba. Quando os africanos chegaram ao Brasil, trouxeram seus costumes, as tradições e a música. Essas adaptadas aos ritmos brasileiros deram origem ao samba. O futebol chegou ao país, vindo da Inglaterra, em 1984, pelo brasileiro Charles Muller e se tornou o principal esporte da nação. Diz a tradição que a cerveja veio para o Brasil junto com a família real, quando o rei D. João VI, um apreciador da bebida fez questão de trazê-la junto com a corte.

Os blocos carnavalescos foram os pioneiros da mais tradicional festa popular brasileira, inspirados nos carnavais que aconteciam na Europa. As pessoas iam para as ruas para brincarem com máscaras e fantasias. As marchinhas carnavalescas eram as atrações dos bailes. Aqui outros personagens foram adaptados ao nosso carnaval como Rei Momo, Pierro e Alerquim. Foi desta brincadeira que surgiram as primeiras escolas de samba no Rio de Janeiro e em São Paulo. A bateria é considerada o coração da escola e é ela que baliza todo o desfile. Os passistas são conduzidos pelas suas batidas. Por isso a importância e responsabilidade do maestro que vai à frente. Com o passar do tempo, os desfiles passaram a ser organizados por ligas oficiais e competições acirradas. E assim, o carnaval hoje faz parte da história e cultura do Brasil.

No final do século XIX e começo do século XX, o futebol começou a se popularizar pelo país, com isso, veio o surgimento de vários clubes de futebol. Em 1910 surgiu o Sport Club Corinthians Paulista, um dos mais populares times de futebol do Brasil. Outros foram se formando, entre eles, a Sociedade Esportiva Palmeiras, fundada quatro anos depois, em 1914, sendo um dos maiores rivais do Corinthians. Os clubes cresceram e arrebanharam milhares de apaixonados torcedores e com isso as chamadas “torcidas organizadas” ganharam espaço. Infelizmente para alguns desses torcedores a rivalidade extrapola os limites das quatro linhas do gramado e a violência ganha as arquibancadas e as ruas. Parte das “torcidas” diversificaram e incorporaram o carnaval às suas atividades. Blocos carnavalescos e escolas de sambas foram criados. Gaviões da Fiel (Corinthians), Mancha Alviverde (Palmeiras), Dragões da Real (São Paulo), Pavilhão 9 (Corinthians), Independente (São Paulo), TUP (Palmeiras), etc. As duas primeiras competem no grupo especial do carnaval de São Paulo.

Mário nasceu na capital paulista e desde criança morou no Jardim São Luis, zona Sul de São Paulo. O pai era despachante e um dos responsáveis pela criação e desenvolvimento do local, sendo o primeiro comerciante do bairro que hoje é um dos maiores da zona sul da cidade de São Paulo. A mãe é dona de casa. Gêmeo com uma irmã de pele clara, cabelos crespos e olhos verdes, características físicas totalmente opostas a ele. Tinham mais três irmãos. Ainda quando criança fazia aulas de músicas na chácara onde morava, porque o pai queria que ele aprendesse a tocar instrumentos. Ele aprendeu os instrumentos de percussão e os de cordas. Muitos deles, ele aprendeu a tocar sozinho, porque era autodidata. Foi a partir daí que o interesse pela música, sobretudo pelo samba, começou a fazer parte de sua vida.

Além do gosto pela música, o pai também deixou para os filhos o amor por um time de futebol, o Corinthians. Era um torcedor fanático. Mas Mário dizia que não foi o pai que o influenciou a torcer pelo time de Parque São Jorge, “Já nasci corintiano”, orgulhava-se. Quatro anos antes de Mário nascer (1954) o Timão havia conquistado um importante título de sua história. Em um jogo emocionante contra o Palmeiras, que terminou empatado em 1 x 1. O Alvinegro conquistou o campeonato paulista que comemorava o IV centenário da cidade de São Paulo (troféu que só será disputado novamente em 2054). Mas foi a partir desta data que começou a saga mais dolorosa da história do time, porque o torcedor esperou quase 23 anos para gritar que era campeão. Ou seja, para optar por torcer pelo Corinthians, neste período, tinha mesmo que ser um fiel torcedor. Essa fase também marcou outro tabu, porque foram 11 anos sem vencer o Santos de Pelé pelo campeonato Paulista (1957-1968). Quando essa série de derrotas foi quebrada, a comemoração foi de campeão. Em 1976, outro marco, quando a Fiel invadiu o Maracanã em uma semifinal acirrada, passou pelo Fluminense e conquistou a vaga para disputar a final do Campeonato Brasileiro contra o Internacional de Porto Alegre, mas não suportou a pressão dos gaúchos e acabou como vice-campeão.

Mário teve de esperar quase 19 anos de sua vida para ver o time de coração conquistar um título. No dia 13 de outubro de 1977 (data que nenhum corintiano com mais de 40 anos esquece) no estádio do Morumbi, mais de 140.000 pessoas viram o Corinthians conquistar o título paulista em cima da Ponte Preta de Campinas. O gol de Basílio a alguns minutos do final do jogo lavou a alma de uma torcida que esperou pacientemente por aquele momento. Um momento eternizado na história do clube. “Foi o título mais emocionante que o Timão venceu”, dizia ele aos amigos.

Na década de 90, Mário teve uma maior aproximação com a música, ingressou na Banda de Benito de Paula e paralelamente fazia shows nas casas noturnas, com a Banda Carioca Clube. Começou tocar em baterias de escolas de samba. Foi bicampeão do carnaval de São Paulo pela Vai-Vai e também teve passagem pela Rosas de Ouro, mas nunca abriu mão de desfilar em blocos carnavalescos. Tinha muitos amigos que o convidavam para participar dos blocos. A cidade de Ibitinga era parada obrigatória nos dias de folia. Todo ano ia para a cidade do interior de São Paulo para participar do carnaval de rua. O Bloco do Beco, uma associação do Jardim Ibirapuera (que surgiu de forma espontânea pelos moradores, que realizam o tradicional carnaval de rua, com os instrumentos de percussão) era também um ponto de encontro para tocar e cantar nos dias de festa. A Banda Deco (uma roda de samba que virou bloco carnavalesco), criada em 1995, no Jardim Bonfiglioli, era outro reduto freqüentado por ele. Ali é o lugar certo para os amantes do samba e do carnaval. Um lugar que tem horário para festa começar, mas não para terminar. Claro, ele não poderia ficar de fora.

Sem deixar o futebol de lado, ele estava no Morumbi, quando em 16 de dezembro de 1990, o Corinthians venceu o São Paulo por 1 x 0 (gol de Tupãzinho) e conquistou o primeiro título brasileiro de sua história. Um time até então desacreditado pela mídia e também pelos adversários, jogou com a raça que lhe é peculiar e levantou a taça na casa do rival. Embora não tenha marcado gols na decisão, o jogador Neto foi o principal responsável pela conquista corintiana.

Nesta época, Marcelo Lima, presidente da Torcida Uniformizada do Palmeiras, era um de seus amigos do bairro e mesmo sabendo que ele torcia pelo arqui-rival, o convidou para ser mestre de bateria da torcida. Ele prontamente aceitou, pois o samba neste momento falava mais alto do que o futebol. Quando foi para a quadra da torcida, deixou claro que torcia pelo Corinthians e que ali estava como profissional. A torcida o recebeu sem constrangimentos, tanto que em pouco tempo, ele conquistou o carinho e o respeito dos palmeirenses que tocavam ali.

Em datas comemorativas, não perdia a oportunidade de reunir os familiares e amigos para festejar. Uma tradição que se repetia, em toda virada de ano, com camisas do Corinthians, cantando e dançando até a manhã do ano novo chegar. Na final da Copa de 2002, quando o Brasil conquistou o Pentacampeonato, fez questão de sair para rua com os instrumentos de percussão, juntou a comunidade e fez muita festa pelo título da seleção.

O que não mudou com a chegada dele na TUP foram as gozações com o rival. E no dia 02 de dezembro de 2007 (o dia que todo corintiano quer apagar de suas lembranças, mas infelizmente, sempre estará marcado em sua história) foi de muita tristeza na casa de Mário. Todos com a camisa do time e olhares fixos na frente da televisão, constataram o inevitável. O Timão, depois de ter jogado um campeonato, com um futebol extremamente fraco, só poderia ter um fim trágico. Um empate contra o Grêmio em Porto Alegre e a queda para a 2° divisão. Ele preferiu ficar em casa naquela noite, mas sempre tinha um torcedor adversário passando pelo portão e tirando sarro da cara dele, que não deixava por menos e também gritava com todos que insistiam na zombaria.
Mas como todo fiel torcedor, não abandonou o time e um ano depois não só vibrou com a volta à elite, mas também com a inesperada contratação do fenômeno Ronaldo, que em fração de minutos, passou a ser o craque mais admirado do clube alvinegro. Falava aos amigos: “Podem tremer, que o gordo vai arrebentar”. E foi dos pés do gordo que teve uma de suas últimas alegrias com o futebol. Final do campeonato Paulista de 2009, o Santos tinha a dura missão de parar um time empolgado e com sede de títulos. E por obrigação, tinha que deixar no passado os momentos de angústia, causados pelo rebaixamento.

Amigos e familiares se reuniram em um bar para assistir o duelo. Ele não podia beber, pois tinha problemas graves nos rins, mas como um genuíno brasileiro, ele deu um jeitinho de burlar os olhares dos filhos. Eles estavam ligados aos lances da partida, mas atentos às peripécias do mestre Mário Preto. “Sobe a bandeira”, gritava ele com empolgação, e quando o manto era suspenso, ele aproveitava para levar para beber o copo de cerveja. E assim, quando se deram conta da “malandragem”, ele já tinha aproveitado e aí não dava tempo para mais nada. O que veio em seguida foi a vibração e a euforia. O Corinthians acabara de conquistar o 26° título paulista de sua história. Dias depois, ele voltou a vibrar com o título corintiano pela Copa do Brasil.

E como numa dessas ironias do destino, no dia 1 de Setembro de 2009, dia que o Sport Club Corinthians Paulista estava em festa, pois completava 99 anos de vida e fazia a contagem regressiva para comemorar o seu centenário, do outro lado da cidade, era a tristeza que tomava conta de uma família corintiana. Na Santa Casa, em Santo Amaro, morria mestre Mário, vítima de insuficiência renal. O homem que conseguiu a admiração de duas torcidas rivais, que se uniram tocando e cantando, na hora do enterro no cemitério Jardim das Cerejeiras. Um ônibus lotado com torcedores alvinegros e alviverdes, lado a lado, em paz. Em cima do caixão, as duas bandeiras, a do seu clube de coração e da TUP, além dos pavilhões dos blocos que ele participava. Todos fizeram questão de marcar presença no último adeus. Ainda teve as homenagens das escolas de samba Unidos do Peruche, Rosas de Ouro e Vai-Vai, sem contar a sala de bateria da torcida palmeirense, que ostentará o seu nome.

Após 26 dias da morte dele, o filho Mário Júnior contou a história do pai. “Ele era uma pessoa muito alegre, fazia piada de tudo”, disse. Lembrava-se da primeira vez que o levou ao Pacaembu para ver o jogo do Timão e também do seu gosto pelo samba e pelo carnaval. A única tristeza do pai era quando falava sobre um amigo que perdeu há alguns anos e que tinha o apelido de Madureira. Encontrava nos versos da música O meu lugar de Arlindo Cruz, a letra perfeita para cantar a admiração ao amigo que se fora. “O meu lugar/ é sorriso e prazer/ o seu nome é doce dizer/Madureiraaa, lá lá laia/ Madureiraaa, lá lá laia”. Gostava também de cantarolar “De coração/ eu só queria que você fosse feliz/ que outro consiga te fazer o que eu não fiz/ que você tenha tudo aquilo que sonhou/ mas vá embora antes que a dor machuque mais meu coração” – Separação, do Grupo de Samba Exaltasamba era a música que ultimamente gostava de ouvir. “Ele achava essa música muito bonita” diz Mário Junior.

O Sr. Mário é uma prova de que as pessoas que fazem escolhas diferentes podem conviver pacificamente, porque cada um tem o direito de fazer opções. Para isso, o respeito às diferenças é fundamental.

Um comentário:

  1. Genial!!
    Realmente pra toda regra à uma excessão.
    Mas acredito que de fato foi uma excessão que aconteceu em uma época diferente onde todos se respeitavam ou pelo menos se aturavam sem se agredir, o q nos dias de hoje isto seria algo comparado a uma gigantesca ilusão.
    Claro ainda com suas excessões também.
    Amigos de verdade costumam de respeitar e conviver em harmonia independentemente do time para que torcem, mas aqueles que não se conhecem infelizmente ainda possuem o pensamento primitivo de ofender, agredir, matar aqueles que de sua facção não façam parte. E atualmente eu parcularmente acredito que este seja um caso perdido. Não existem meios que façam com que as facções espalhadas pelo país/mundo afora convivam em paz.

    Ass: Rafael de Athayde

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